Tuesday, May 23, 2017

Maio, 2017 - Fim de tarde em Brasília

Um burburinho de barzinho no fim de tarde. Tudo parece igual. Amigos se encontram no Café, grupos ocupam as mesas maiores. Adoram sentar-se ao lado de quem lê um livro, de quem está só. Desconfiam dessa solidão e afrontam-na.   Alguém solta uma gargalhada alta.   Tudo normal, tudo como antes.

A música contorna as conversas e risadas: “Cai o rei de espadas, cai o rei de ouro, cai o rei de paus, cai não fica nada…” Nada é, na verdade, como antes, como o dia de ontem. Hoje, o ar que se respira é grosso, agressivo e sufocante. Nada, abaixo da epiderme do mundo está igual. A brisa leve não engana. Refresca o corpo, mas a alma treme.

Agora, toca Roda-Viva. “Como pode? Ontem mesmo era ano 2000.” Quando o golpe se deu e as ideias estapafúrdias começaram a surgir com projetos que tinham o nome de músicas da minha infância, regravações dos anos 80 começaram a entupir os programas de rádio. Hoje, Elis e Chico ressurgem nesse Café, fazendo o sentido que já não faziam há tantos anos. Apertam o meu peito, me fazendo lembrar que, apesar da aparência leve, nada é mais o mesmo, tudo pode ser pior. E é preciso fazer algo, para além da superfície, antes que seja tarde.

É preciso fazer algo, mas do canto dessa minha mesa, vejo dois rapazes que se encontram. Já estudaram comigo, se abraçam e se dão um suave beijo. Hoje, não tenho muito o que dizer, então permaneço aqui quieta, observando. Sentam juntos, um carinho no rosto, um sorriso. Ricardo e João. Ricardo foi meu amigo por tanto tempo, até a época da faculdade, João era amigo do meu irmão, do time de judô. Era bravo, o João. Ricardo era lindo. Ainda é. Sopra o cabelo que cai no rosto e eu sorrio. O mundo não é o mesmo, mas algumas coisas não mudam. O hábito juvenil permanece. Não lembro se se conheceram por nosso intermédio. Tanto tempo…

Fico feliz em vê-los juntos. João parece tão mais leve, junto à Ricardo. Peço uma taça de vinho e uma água da casa. Ouço João perguntar, rindo: “Tu não ia cortar o cabelo, Ricardo?” O outro respondendo  “Cortei! Não percebeu?” “Mas tá soprando essa franja do mesmo jeito! Cortou o quê? Um milímetro, né?”   João corre os dedos pelo cabelo do outro. Riem juntos.

Tomo um gole do vinho que chega. Pelo menos uma coisa boa, ver amigos que se encontraram, ver amigos felizes. “Ouviu o pronunciamento hoje?” Ricardo pergunta. O outro assente com a cabeça. “Acho que só sai mesmo na marra, né? Muita cara de pau!” Eles pedem umas cervejas para o garçom parado na mesa do lado da minha. O caminho do olhar de Ricardo passa por mim e volta. Me vê e sorri, faz sinal para João e caminha agora na minha direção. O Bar toca agora Belchior, que morreu há pouco: “É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem...” Eu tomo mais um gole do vinho e levanto para falar com meu amigo. 



Monday, May 8, 2017

Olhos de rio

Não sabia o que fazer, 
não sabia o que esperar
Contava as estrelas, 
até o barco chegar, 
deixava o rio passar
Sozinho, à margem
Ohos de rio
que segue pro mar

E leva tudo, 
seguindo sempre
sem medo, 
Olhos de rio,
Correnteza que traga 
tudo, sempre
sempre e repetidas vezes,
tudo e repetidas vezes

Caminha  mais, 
um pouco mais, 
um pouco além
Segue a margem
Na segunda curva, 
olha pra trás 

Se vê, longe, pequeno
Tanto tempo,
tanta dúvida,
tanto caminhar, 
tanto,  sem ir 
a nenhum lugar
 
Vê  os sonhos, 
Deixou escapar
Segue adiante, 
olhos de rio transbordantes,
misturando outras águas

Caminha, muda,transmuta    
Olhos de rio,
finalmente mar

Thursday, April 6, 2017

Plano pra ficar malhado

Ele tinha um plano
Estava muito animado
Ia ficar bombado
Tudo já determinado
Um roteiro organizado 
Para ser super sarado

Chegou na academia
O plano fora cancelado
Ele então ficou bolado
Mas quando voltou pra casa 
Viu os halteres quebrados
Os suplementos trancados 
Com dois cadeados pado
Como ficou chateado 

A mãe sorria na porta
E ele a olhou magoado 
Não queria o filho malhado 
fortão, todo marombado 
Suspirou, conformado 
Seu plano desmantelado

Ela, tomou-o pela mão
Abrindo lá na cozinha uma panela de barreado
Cozinheira de mão cheia
Dessas de forno e fogão
Ele abriu um sorrisão

Repetiu a farinha e ficou mais animado
Esqueceu aquele plano de ficar todo malhado 
A comida da mamãe era assunto complicado 
pra deixar assim de lado


Recuerdos, cambios y rumbos


Una amiga me dijo que en los años setenta, hubo una invasión de ratones en Brasilia y que ellos salían por el desague del bidé y entraban en los apartamientos de Asa Norte. Ella me pregunta si no me acuerdo. No me acuerdo. “En serio? No te acuerdas?” No me acuerdo.

No me acuerdo de la invasión, no me acuerdo de comentarios, noticias. Respondo que era muy pequeña, pero ella es más joven que yo. Rio sin gracia, sin mostrar los dientes: “Realmente no me acuerdo!” De lo que me acuerdo es siempre haber tenido miedo de ratones, más que de cucarachas. Y de siempre soñar con ellos en tiempos de angustia, preocupación. Una vez vi un video de un asado en la casa de mis padres en que intento alertar a mi madre del paso de un ratón y ella me ignora. Me pareció que no quería llamar la atención de los invitados para la presencia del animal asqueroso que corría en la orilla de la cerca. No quería interrumpir su canto y su soleado día de domingo y, por eso, ignoró completamente lo que dijo la niña inconveniente. 

Una amiga me contó también que ya se miró por tanto tiempo en el espejo que la imagen quedó difusa y ella no se reconoció más. Se transformó en un ser extraño. El reflejo era de alguien más. “Nunca te pasó?” No, nunca. Creo que nunca pasé tanto tiempo mirándome en espejo. Rápido encuentro un defecto, un incomodo y me voy. Le prometo experimentar, pero me olvido, o finjo olvidarme. No sé si quiero mirarme por tanto tiempo. Y si me disuelvo y desaparezco?  Y si no sé más quien soy?

Mi hija me pidió una petaca, “si tu tuvieras una que no usas más”. Respondí, casi tragando el polvo compacto y atragantándome con las palabras: “A esta hora de la mañana? No, no tengo una petaca, no me preocupo con petacas. Si quiero mirarme en el espejo, voy al baño y me miro”. Pero creo que no me miro. O no sé si me miro. Le respondo así y me arrepiento. La prisa, la prisa termina con la delicadeza de los sueños, pequeños como petacas, rotas. Le prometo, dar una mirada en otra hora para intentar encontrar una petaca. Me acuerdo de los ratones, del miedo de los ratones y del video del asado. El dolor de alertar a un adulto del peligro y ser ignorada. Soy peor que mi madre. Por lo menos mi madre era dulce.

Ando sin aliento. Ando con miedo. Voy a romper todas las petacas, mismo que no quiera, mismo sin querer. Mismo que entienda que pueden reflejar sueños. Mi prisa, mi limitación. En cada pedacito de espejo roto, tal vez, busque aquella delicadeza, aquel cariño y no lo encuentre. Porque barrí todos los pedacitos violentamente para lejos. Porque no sé cuidar.

Conté a otra amiga que casi me ahogué en la piscina. Casi me ahogué en los 200 metros del calentamiento. Yo que nado en el mar, que nado en el lago Paraná. Una burbuja de aire trancando mi garganta, un latir del corazón que arrastró el cuerpo para el fondo y desordenó brazos y piernas. “Me voy ahogar!” La voz en mi cabeza me dijo rigurosa y fuerte: “No seas ridícula! Tu nadas mucho!” Persistí en la respiración.  Tragué el aire, soltando un sonido parecido a una persona que estuviera encadenada al fondo del mar y solo ahora se estuviera desprendiendo y volviendo a la superficie. Solté de a poco el aire, observando las burbujas que se formaban. Una vez y más otra y otra todavía. De a poco la respiración se fue normalizando.

No me ahogué y no desistí de nadar. No desisto, mismo que se muestre difícil, mismo que falle y me vea imperfecta. No desisto y continuo, buscando equilibrar inspiración y expiración, buscando aliento y calma, buscando claridad y verdad. No me rindo y mantengo los ojos abiertos y la mente atenta para cambial el ritmo de las brazadas si fuera necesario. Oigo el latir de mi corazón, su ritmo y su arritmia, los dos importantes, para decidir si debo pausar o cambiar de dirección. 









Sunday, April 2, 2017

About Poets

Poets cultivate carnivorous plants
I wonder why they do 
Perhaps it is because they don't mind having their finger bitten once in a while
Or maybe they enjoy seeing something eating something else

Poets are funny sad creatures 
They linger on long lost dreams 
They soar above with their light plumb wings 
And tear your skin off with their sharp strong teeth 

Poets are sweet dangerous entities
They fall in love with you 
The details of you 
And the weirdness of you
They see you
Your contours, your shadows
And they make you eternal
Poets take mental notes of your moves
They see when a drop of sauce stains your shirt
They watch when your tongue moisturizes your lips 
When you statter, when you cry, when you tell a lie
They hover above your house
And stare through the bedroom window while you sleep

Poets cover you with the thick blanket of the night 
Poets sing you lullabies
They deeply care 
And deeply don't give a damn 
They use your words, repeat your sentences,
expose your faults, tell your secrets 
They come bite your neck when you're asleep 
and suck your blood until you're dry

Tuesday, March 14, 2017

Sail away on paper boats

Say no to crocodiles and bad dreams.Say no to oily French fries and  people who tell not what they mean. Say no to liposuction and a 20 day recovery. Say no to shopping malls and closed doors. Say no to invisible elephants, they occupy the same space. Say no to plants that insist in dying and friends that insist in disappearing. Say no to conquistadors. They extinguished civilizations. Say no to straight lines and squared rooms. Say no to puppeteers and clowns that scare your children. Say no to unfair deals and to sucking blood vampires

Say yes to walks in the park and a day out in the sun. And to letters making up words, forming up sentences, composing light. Say yes to blooming fields and pictures of happy families.Say yes to the crying child behind the happy picture and buy her a pink baloon. 

Say yes to what rhymes and what sounds soft and sweet to your ears, things like "sudden serendipity"  
or  "silvery threads of thoughts" and "glimmering golden dreams".Say yes to memories of your grandparents' living room, with old record players and cristal glasses on the shelves. Say yes to the smell of those memories.

Say yes to images that seem banal, but carry your poetry within. Say yes to those who cover themselves in moonlight and dance naked among the stars. And to the ones carrying Chinese lanterns and preparing their paper boats to rescue you from the big flood. Prepare yourself your paper boat. Fill it up with your most treasured insane dreams and sail away, before you drown, in the direction of the Northern Star. 



Wednesday, March 8, 2017

Lembranças, mudanças e rumos

Uma amiga me diz que nos anos setenta, houve uma infestação de ratos em Brasília e que eles saiam pelo ralo do bidê  e entravam nos apartamentos da Asa Norte. Ela pergunta se eu não me lembro. Não lembro. "Mesmo? Não lembra?" Não lembro.

Não lembro da infestação, não lembro de comentários, notícias. Respondo que era muito pequena, mas ela é mais nova que eu. Sorrio sem graça, sem mostrar os dentes: "É, não lembro." O que lembro é de sempre ter tido medo de ratos, mais do que de baratas. E de sempre sonhar com eles em tempos de angústia, preocupação. Uma vez vi um video de um churrasco na casa dos meus país em que tento alertar minha mãe da passagem de um rato e ela me ignora. De certo não queria chamar a atenção dos convidados para a presença do animal asqueroso que corria no canto da cerca. Não queria interromper sua cantoria e seu ensolarado dia de domingo e, por isso, ignorou completamente a fala da criança inconveniente.

Uma amiga me contou também  que já se olhou por tanto tempo no espelho que a imagem ficou difusa e ela não mais se reconheceu. Virou um ser estranho, o reflexo de outro alguém. "Nunca aconteceu com você?" Não, nunca. Acho que nunca passei tanto tempo me olhando no espelho. Rapidinho acho um defeito, um incômodo e vou embora. Prometo experimentar, mas esqueço, ou finjo esquecer. Não sei se me quero me olhando por tanto tempo. E se me desmancho e desapareço? E se não sei mais quem sou?

Minha filha me pediu um espelhinho, "se você tiver um que não use mais". Eu respondi, quase engolindo pó compacto e engasgando com as palavras, : "A essa hora da manhã? Não, não tenho espelhinho, não me preocupo com espelhinhos. Se quero me olhar no espelho, vou ao banheiro e me olho." Mas acho que não me olho. Ou não sei se me olho. Respondo assim e me arrependo. A pressa, a pressa acaba com a delicadeza dos sonhos, pequenos como espelhinhos, quebrados. Prometo dar um olhada em outro horário para tentar achar um espelhinho. Lembro dos ratos, meu medo de ratos e do vídeo do churrasco. A dor de alertar o adulto do perigo e ser ignorada. Sou pior que minha mãe. Pelo menos minha mãe era doce.

Ando sem fôlego. Ando com medo. Vou quebrar todos os espelhinhos, mesmo que não queira, mesmo sem querer. Mesmo que entenda que podem refletir sonhos. Minha pressa, minha limitação. Em cada pedacinho de espelho quebrado, talvez, busque aquela delicadeza, aquele carinho e não o encontre. Porque varri os caquinhos violentamente para longe. Porque não sei cuidar.

Contei a outra amiga que quase me afoguei na piscina. Quase me afoguei nos 200 metros do aquecimento. Eu que nado no mar, que nado no lago Paranoá. Uma bolha atravancando a garganta, um bater de coração que puxou o corpo para o fundo e descoordenou braços e pernas. "Vou me afogar!" A voz da minha cabeça me disse rigorosa e alta: "Não seja ridícula! Você nada muito mais!" Persisti na respiração. Puxei o ar de uma vez, soltando um som semelhante a uma pessoa que como  tivesse sido acorrentada ao fundo do mar e só agora tivesse se desprendido  das amarras e voltado à tona. Soltei aos poucos o ar,  observando as bolhas que se formavam. Uma vez e mais outra e outra ainda. Aos poucos a respiração foi se normalizando. 

Não me afoguei e não desisti de nadar. Não desisto, mesmo que se mostre difícil, mesmo que falhe e me veja imperfeita. Não desisto e sigo, buscando equilibrar inspiração e expiração, buscando fôlego e calma, buscando clareza e verdade. Não desisto e mantenho os olhos abertos e a mente atenta para mudar o ritmo das braçadas se necessário for. Ouço o bater do meu coração, seu ritmo ou sua arritmia, os dois importantes,  para decidir se devo pausar ou mudar de direção.


Sunday, March 5, 2017

O comprimido

Uma pílula, um comprimido. Tomar um por dia, me disse o médico. Nunca me lembro de tomar essa porra! Um remédio desses que é ruim com ele, pior sem ele. Tem um outro que vai junto, menorzinho. Esse é um troço comprido que, pode parecer ridículo, mas se tomar com muita água, boia na boca e não desce, depois fica aquele gosto amargo na língua. Se tomar com pouca água, entala. Quase morro da última vez. Juro que fiquei roxa.

Moro só e achei que ia ser encontrada pelo porteiro daí a uma semana, quando sentissem meu cheiro de podre no corredor. Os vizinhos reclamariam e viriam com o porteiro arrombar a porta. Lá estaria eu, morta, roxa como uma beringela, as baratas passeando pelo meu cadáver. Dias depois ainda seria o comentário do prédio: "Mas, morreu de quê?" "Ah, menina, você não vai acreditar! Morreu entalada com um comprimido!" 


A pocket full of nos

No
No money 
No way
Exhaustion 
and Insomnia

And 
No  
No scape 
Salty sweat drops 
On your lips 

And
No
No bath
No water  
The lake is drying up 
We will walk on it 

No
No hope
One day 
One foot after the other 
We will cross it 

And 
No 
No relief
No dreams 
To be dreamt
No more


Sunday, February 12, 2017

Ex


E do nada apareceu aquele ex
Me chamando de meu bem
Veja que insensatez

Me tratou como um cão maltês
Ou pior, um pequenez 
Fiquei numa viuvez 
Foi grande o estrago que fez

Meu bem!  Ora, meu bem! 
Pensa que esqueci o que me fez 
Pra ficar bem foi pra lá de mês
Vai acabar ouvindo desaforos 
em bom português

Ah, se ao menos tivesse sido uma só vez
Mas foi uma, foi duas, foi três
Veio de novo, a branca tez e aquela cara de burguês
Chegou e me chamou: De meu bem. 

Me olhou como antes, com cara de amante francês
Titubeei, mas segurei
Juntei meu cearencês e disse: 
Olhe, seu filho d'uma égua, é muita desfaçatez! 
Tome o rumo da sua venta e não me apareça,
 nunca mais,  outra  vez. 




Wednesday, February 8, 2017

Recém casados

Recém-casados, um apartamento de dois quartos para um casal. Parecia muito, a princípio, um privilégio. Não tinham filhos. Tem gente que mora em um quarto e sala com oito meninos. Dormem uns por cima dos outros, amontoados, redes por cima de redes. Eles tinham um escritório. Olha o luxo! E uma cozinha americana!

O problema é que para onde ela se virava, lá estava ele, um sorriso nos lábios e aquele olhar tranquilo. E tudo que ela pensava era: "Meu Deus, agora para onde eu me virar vou dar de cara com ele? Ganhei essa sombra! Aff!" Disfarçava, sorria de volta, um sorriso daqueles que não mostram os dentes, só empurram as bochechas para os lados. Até que acordou um dia e foi escovar os dentes, a pasta de dentes apertada no meio.  Deu um grito. Ele correu para a porta solícito. Era demais! O rosto queimando, berrou: "Olha, assim não dá! Eu preciso do meu espaço!" 

Saiu marchando, bateu a porta, andou uns 20 minutos em volta do quarteirão. Quando a respiração voltava ao normal, olhou as pantufas nos pés e resolveu voltar. Chamou o elevador, entrou devagar, enquanto os números iam aumentado ela pensava em como ia se explicar.


Friday, January 27, 2017

Once

I once dated a werewolf           

Eyes like flashlights          

showing the path

I once walked the path

I found lost words

I found lost pain


I once threw my car from a bridge

In the highest speed

When street lights seemed like flying arrows

and the water from the lake was a dark brick wall


I once threw stones at the windows of the moon

and sailed a boat of stardust in a lightless night

I crossed the borders in disguise

and spoke a million tongues

I now decided to forget


I once danced with a king

on top of the highest tower

No one ever saw the king

No one, but me


I once was a speck of dust

I once was a grain of sand

I was part of a hurricane

And I landed on another land


I once dreamt new dreams

and wrote them on napkins

I once wrote poems on spaceships

and lies on  pages of ancient books

no one ever read


I once took a look

I once took a pick

I once took a bite

It did not do the trick   


Thursday, January 26, 2017

Overwhelmed?

Would you help me if I stopped breathing? You don't care if I live or die, do you? Bring me water, Read me a story! Hire someone to help. Do you think she will die on the operating table? Have you thought of what to do? What will you say to the kids? Would you stay a little longer? Would you hold my hand? Who is the teacher? What are the strategies? Can I get a discount? Did you answer the messages? Did you pay the bills? Did you lock the doors, roll up the windows of the car parked outside? Did you think about that project? And 'bout the prospect of never really being what you intended to be? Did you think about that? Do you worry that more friends of yours may die? Are you afraid you won't be there? Do you text your friends in the morning to secretly check if they are alive? Are you afraid you won't hear her if she actually stops breathing in the middle of the night? Have you dried out? Will you have dementia? Will you know your name? Did you live a happy life? Why are you so afraid? Do you think you're  overweight? Do you think you're over it? Do you feel you're  overwhelmed? Do you think you're over? 

Tuesday, January 17, 2017

Meu conto de Natal

Horas no shopping na semana de Natal, detesto ir ao shopping na semana de Natal. Com um monte de sacolas, sentei no café enquanto meu marido foi enfrentar a imensa fila de cupons de troca de notas fiscais, mas antes,  me dei conta que não tinha nada para ler na bolsa. Sempre tenho, um livro, o Kindle, ou os dois. Resolvi comprar um livro, de  contos, porque não daria tempo de ler tanta coisa assim. Entrei na livraria, uma olhada rápida em algumas coletâneas e comprei. Simples assim, um livro novo porque não queria sentar em um café e suportar vinte minutos de tédio misturado com o cansaço da tarefa ingrata das compras junto aos que, eu e minha irmã, sempre chamávamos "os desesperados", essas pessoas que deixam as compras de Natal para a última hora. 

Sentei-me no Café, as sacolas em outra cadeira, pedi um chocolate quente daqueles que parecem um danete de tão grosso e um copo de água da casa, que a garçonete trouxe com a má vontade costumeira, comum a todos seus colegas desde que se implementou essa lei que obriga estabelecimentos a servir água potável gratuita no Distrito Federal. Trouxe a água, o chocolate e um biscoitinho, um wafer coberto de chocolate. Abri o livro e aos poucos fui sorvendo minha bebidinha, deixando para lá o stress, a lei da água potável e a garçonete. Fui entrando no livro, em outros mundos, outras vidas.

 Algumas páginas de leitura e me aparece um garoto dos seus dez anos, idade da minha filha, cabelo curto crespo, estranhamente amarelo, oxigenado, a pele marrom, uma camiseta maior que ele, velha e suja, o odor azedo de suor forte e antigo: "Tia, tem um trocado?" Surpreendeu-me aquele menino, naquele shopping, naquele café. Achei por bem falar com ele rápido, antes que alguém se desse conta e o expulsasse do Café. Não, eu não tinha um trocado, e ele, ou ela, porque bem poderia ser uma menina ao final, tinha me pegado de surpresa. Olhei para a mesa e ofereci rapidamente: "Não tenho trocado, mas tenho esse biscoito, quer?" "Quero!" Me deu um sorriso e me disse:"Obrigado, tia! Bom Natal!" "Para você também!", ainda respondi, e fiquei olhando aquela criança se afastar, maltrapilha, amarela e só, em meio a adultos cheios de sacolas e outras crianças gordas e rosadas. Não fiz mais nada, nada mesmo. Fiquei só ali, me sentindo longe e pequena, olhando a criança desaparecer na multidão. Fiquei ali, sentada, parada, e com uma imensa vontade de chorar.  


Monday, January 9, 2017

Conselho


Sê caos
Sê dúvida
Sê angústia
Sê confusão

Mas 
Sê amor
Sê maior
Sê inteira
Sê verdadeira







Restos de um dia

Calor o dia inteiro, sol de rachar mamona, amigos, piscina, cerveja. muito protetor solar nas crianças, talvez não o suficiente. Não parece haver suficiente protetor em um dia assim. Em mim, nada. Esqueci. Agora, as crianças ressacadas se arrumam para dormir. Hoje, uma espera a fada do dente, derruba o leite na mesa e enrola para comer. 

Vou tomar um banho, o corpo dolorido do dia, de ontem, porque hoje foi só sentar, ouvir, falar, beber, comer uma tonelada, enquanto ria do anedotário dos amigos e me preocupava com crianças que querem WhatsApp e com histórias de adultos se passando por crianças para atacar crianças pelo WhatsApp. Agora é o cheiro do dia de sol no corpo, o odor acre de suor velho.  Espero para tomar banho, crianças cheirando a lavanda enrolam para escovar os dentes e dormir, eu finjo não ver e vou tomar banho. As costas ardem acima da gola canoa do vestido leve, que,  mesmo leve, empapou de suor às três da tarde do horário de verão de Brasília. Sol mais baixo, quis vir embora. "Só mais uma! A saideira!" "É raro", pensei,  e fiquei, um pouco mais, só um pouco mais. Dorme agora. Amanhã talvez se arrependa do excesso. 

Crianças enrolam para ir dormir, um estranho silêncio por cinco minutos. Ligaram a TV. "Nada de TV! É hora de dormir."  Prometo que passo para dar um beijo, depois do banho. Enrolo para tomar banho. Uma vozinha cantarola uma canção inventada, um improviso. "Quando paramos de improvisar?" Penso, procuro na linha do tempo, busco alguma memória, mas  não encontro nada. "Quando foi a primeira vez que alguém me disse que não podia? Que não devia?  Que eu não sabia? Quando foi que eu não mais liguei para o que antes me disseram?" Também não sei. Agora discutem, de novo: "se eu pular do quinto andar, você vai pular também?" "Não, eu não sou você!" Até que a resposta é boa. Rio baixinho, mas não me meto. Deve ser o décimo micro debate do dia, encerrei minhas participações. Vou tomar banho.  Já já, vou.