Wednesday, December 14, 2016

No Noticiário

No noticiário, a imagem de uma jovem noiva na frente de um helicóptero, um sonho romântico de grandeza e o desejo de surpreender o noivo com uma chegada glamourosa na cerimônia. Um voo curto. Há cinco minutos de distância do salão, em que esperava o noivo, a família e quatrocentos convidados, jazem os restos dos sonhos de um jovem casal. O dono do salão fala ao repórter, lágrimas nos olhos, e conta de seu sofrimento e dificuldade em informar, primeiro, o noivo, que urrou e caiu de joelhos de dor; depois, os convidados, que o encararam em silêncio e descrença.

Isso foi ontem e eu não consigo tirar essa história da cabeça. Não consigo faze-la ir embora. Por quanto tempo permanecerá comigo, eu não sei, mas me pergunto se será como uma outra história, que uma amiga uma vez me contou, sobre um colega de trabalho que morreu de repente em uma manhã de quinta-feira. Ela contou que, na segunda seguinte, o departamento em que trabalhavam celebrava, como sempre fazia, os aniversariantes do mês e que usaram a mesa do colega morto para servir o bolinho e as bebidas da comemoração. Contou-me, então, que não disse palavra, mas que teve que correr para vomitar no banheiro. Ela nunca esqueceu essa história, e nem eu.

Imagino por quanto tempo essa noivinha, de pele marrom, como a maioria das brasileiras, com seu longo negro cabelo de grossos fios, em seu vestido branco brilhoso e bufante, permanecerá em meus pensamentos, quanto tempo sofrerei a dor de seus sonhos perdidos, não realizados, toda a felicidade e todos os pequenos e grandes dramas de uma longa vida de casada que ela não terá. Dói em mim, uma dor aguda no peito e um nó que sobe e desse na garganta.

Uma foto foi tirada da noiva em frente ao helicóptero que levou sua vida. Ela pretendia mostra-la a seus filhos, um dia, a foto de seu primeiro voo de helicóptero, a primeira vez que decidiu fazer algo aventureiro e surpreender o amor da sua vida. Eles sentariam em volta da mesa da cozinha e fariam gozação dessa história porque, para eles, ela era uma mãe e uma mãe não tem aventuras. Sua última foto foi um retrato feliz. Não permaneceu deitada em um hospital, cheia de tubos e equipamentos, sendo virada de um lado para o outro e cutucada de hora em hora por incontáveis agulhas. Ela subiu aos céus cheia das maiores esperanças e sonhos.

No helicóptero morreu outra mulher. Uma romântica, sem dúvida, pois ganhava a vida tirando fotos de casamentos. Uma romântica que precisava ganhar a vida, pois, grávida de seis meses, subiu no helicóptero decididamente, porque nada de ruim pode acontecer quando se faz coisas por amor, para o amor. Se fosse eu, provavelmente não teria subido nesse helicóptero, mas essa sou eu hoje. Eu sei que coisas horríveis podem acontecer. Há quinze anos teria sido diferente. Eu era diferente.

Essa jovem fotógrafa, grávida, talvez de seu primeiro filho, prestes a nascer, acreditava na vida, acreditava no amor, e tinha que ganhar a vida. Penso no seu marido, na família, nas roupinhas guardadas em um quarto de bebê decorado. Imagino que levará todas as roupinhas dali enquanto a família vive esse luto injusto em dobro. Imagino a raiva que o marido sentirá, a ira e o desespero de descobrir-se incapaz de voltar o tempo.

O helicóptero invade meu pensar, a máquina em si, e eu posso ouvir seu ruído alto, suas hélices rodando, o vento que elas provocam. Vejo a noiva lutando para subir nele sem destruir o lindo trabalho do cabelereiro, segurando a cauda do vestido de lado. Ela talvez tenha se indagado se teria mesmo sido uma boa ideia alugar esse negócio. Ela talvez tenha pensado sobre a inutilidade dessa chegada glamourosa se, no fim das contas, aparecesse na cerimônia com o cabelo de uma bruxa enlouquecida.

Espero que ela se tenha ido com um piscar de olhos. Espero que ela tenha ido inconsciente. Espero que tenham todos morrido instantaneamente. Prefiro pensar que o vestido da noiva permaneceu branco, puro como seus sonhos. Prefiro pensar nela em seu imaculado vestido marfim, em um caixão de cristal, um tipo de bela adormecida, pronta para acordar com um beijo de amor verdadeiro. Sei que não é assim. Eu jogo esse pensamento para longe, mas ele retorna, o vestido branco destruído de sangue. E eu penso nas pessoas que tiveram que retirar o corpo dos escombros, esse corpo e o corpo da jovem fotógrafa grávida.

Eu tento buscar razões que expliquem um acontecimento assim. Não encontro nenhuma. Nunca haverá explicação. Coisas horríveis acontecem, eu lembro a mim mesma. Elas acontecem. E não tenho a menor ideia de porque essa máquina simplesmente caiu do céu, acabando com tantos sonhos. Não consigo achar explicação e talvez por isso continue pensando nelas, nessa jovem noiva, nessa fotógrafa grávida, nas pessoas sem rosto que ficaram para chorar por elas. Eu sou parte da sua dor e eu quero gritar que não é justo. Eu sou parte dessa dor e quero dizer que isso nunca deveria ser permitido. Quero informar a alguém que algo assim nunca deveria acontecer, mas não há ninguém para contar. Não há ninguém a quem informar. E eu fico, aqui, pensando nelas.

Wednesday, December 7, 2016

On the News

On the news the image of this young bride in front of a helicopter, some romantic dream of grandeur and the wish to surprise her fiancé with a glamorous arrival at the ceremony. A short flight. Five minutes from arriving to the ballroom where the groom, the family and four hundred guests waited, lay  the remains of the young couple's dreams. The owner of the ballroom talks to the reporter, tears in his eyes, and tells of his pain and difficulty in informing first the groom, who screamed and fell on his knees in pain, then the guests, who stared at him in silence and disbelief. 

This was yesterday and I cannot shake the story off my mind, I cannot make it go away. For how long it will remain with me I do not know, but I wonder if it will be like this other story a friend told me about a coworker she had that died suddenly of a heart attack on a Thursday morning. She told me that on the following Monday, the department in which they worked was celebrating, as they usually did, the birthdays of the month and they used the dead coworker's desk to set the cake and beverages and merrily sing happy birthday. She told me, then, that she did not say anything, but that she had to run to the bathroom and throw up. She's never forgotten that story and neither have I. 

I wonder how long this young bride, brown skinned, as most Brazilians are, with her thick long dark hair, on her puffy shiny white gown, will remain on my thoughts,  how long I will suffer the pain of her lost dreams, unfulfilled, all the happiness and all the petty and great drama of a long married life she will not have. It pains me, an acute hurt in my chest and a lump that moves up and down my throat.

A picture was taken of her in front of the helicopter which took her life away. She intended to show her kids, one day, the picture of her first helicopter flight, the first time she decided to do something adventurous and surprise the love of her life, their dad. They would be sitting around the kitchen table  and they would mock her because, for them, she was a mother and a mother has no adventures. The last picture of her was a happy picture. She did not lay on a hospital bed, full of tubes and gadgets, being turned by strangers and poked hourly by countless needles. She rose to the skies full of the greatest hopes and dreams.

In the helicopter, died another woman, a romantic, no doubt, for she made a living out of taking pictures of weddings. A romantic who needed to make a living, since she was 6 months pregnant and climbed on the helicopter decidedly, because nothing bad can happen when you do things for love, out of love. If it were me, I would probably not have gotten in that helicopter, but that is me now. I know horrible things can happen. Fifteen years ago it was a different thing. I was a different person. 

This young photographer carrying, perhaps, her first baby, soon to be born, believed in life, believed in love and had to make a living. I think about th husband, the family, the tiny clothes in a decorated baby bedroom. I wonder who is going to carry all of the baby's clothes away while the family lives through this double unjust grieving. I imagine the anger this husband will feel, the rage and the despair of finding himself incapable of turning back time. 

The helicopter comes to my mind, the machine itself, and I can hear its loud noise, the rotating blades, the wind they provoke. I picture the young bride struggling to get inside it without destroying the beautiful work of her hair dresser, holding the trail of her dress to one side. She might have wondered then if it had really been a good idea to have rented this thing. She might have thought of the uselessness  of this glamorous arrival  if she would have looked like a crazy haired witch at the ceremony. 

hope she went with a blink, I hope she was unconscious. I hope they all died instantly. I'd like to think the bride's dress remained white, pure as her dreams. I'd like to think of her in her immaculate ivory dress, in a glass coffin, a sort of a sleeping beauty who would wake up by a true love kiss. I know otherwise. I shake that thought off, but I know it is there, the white dress destroyed with blood and I think of the people who had to carry that body away, that body and the body of the young pregnant photographer. 

I try to think of reasons why something like this happens. I find none. There will never be an explanation. Horrible things happen, I remember myself. They do happen. And I have no idea why this machine just fell from the sky, ending so many beautiful dreams. I can't find an explanation and maybe that's why I keep thinking of them, this young bride, this pregnant photographer, the faceless ones who remain to mourn them. I am a part of their pain and I want to scream that it is not fair. I want to tell someone this should never have been allowed. I want to inform someone that something like this should never happen, but there is no one to tell. There is no one to inform. And I remain here thinking of them. 

Saturday, December 3, 2016

Sobre burbujas de jabón


Hubo un tiempo en que pensé mucho en burbujas de jabón. En verdad, ellas surgían en mi pensamiento, livianas, de una transparencia azulada, suaves. Allá permanecían, flotando, de manera que solo podría pasar en sueños. Era un tiempo de suavidad, de caminar a un palmo del suelo y volar para lejos. Toda burbuja de jabón tiene una ventana. Y yo entraba por la ventana, sentía la delicadeza. Por dentro, contemplaba la belleza de las paredes finas. Yo veía el brillo de cada arcoíris. Toda burbuja de jabón tiene un arcoíris. Sabía que era imaginaria y sabía que mismo una burbuja imaginaria no podría durar para siempre. Flotaba con la burbuja y contemplaba la ventana abierta. Hasta que las paredes estuvieran más y más delgadas y el mínimo plop me avisara del fin de la burbuja. Puf, era una vez una burbuja. 

 

Yo continuaba pensando en la burbuja de jabón, yo la traía para el papel, yo la revivía. Y cuantas veces soñé y cuantas veces me dejé llevar. La verdad es que siempre me fascinaron las burbujas de jabón. No como el científico del cuento que estudiaba su estructura. Nunca quise saber de la estructura de la burbuja. Soy del tipo de persona que se pierde en la rigidez de las estructuras. Es la belleza de la burbuja que me atrae. Es su  liviandad que me conduce, su capacidad de vuelo que me lleva. Es su carácter efímero que me atormenta. 

 

 

Bella y sutil es la burbuja de jabón y yo cargo todo el peso del mundo. Mis pies se hunden en cada pisada, cada vez mas hondo, cada vez mas pesado el paso. Necesito de las burbujas de jabón y aún las busco. El paso es lento, la pisada es profunda, pero yo sueño con burbujas de jabón y hay siempre una ventana en una burbuja de jabón.