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Tiana

Tiana saiu da escola, carregada de cadernos, 200 redações para corrigir durante o fim de semana. Tiana faz mestrado e queria ensinar os alunos a escrever outra coisa que não dissertação. Não pode! "Tem que ensinar o que é útil!", respondeu a diretora.

Na universidade lhe cutucaram uma vez e informaram que era preciso limpar o banheiro que estava muito sujo. "Não trabalho aqui!"  No trabalho já lhe pediram cafezinho. "Fica ali naquela mesa." Tiana vira as costas e não dá tempo para as justificativas e desculpas. Já sentiu muita dor. Não mais!  Agora é algo  assim como um desprezo. Em casa, pede comida do restaurante da esquina. Detesta cozinhar. 

Entra em seu quarto colorido, paredes azuis, mesa amarela de frente para um janelão, cadeira vermelha, e senta para corrigir as 200 redações.  Ouve o coaxar dos sapos lá de fora. Tiana tem muito nojo de sapo. Ouve um jazz instrumental e começa o trabalho. Meia hora e adormece em cima da pilha de textos iguais, formulaicos.

Acorda com o sol, queimando o rosto. Em cinco minutos toca o despertador. Tem aula, precisa correr. Sai de cabelo molhado. Pega o elevador, dá bom dia. "Tem um elevador de serviço, viu?" "Eu moro aqui!" Dá um passo à frente. Revira os olhos e cola na porta. A porta abre, Tiana sai primeiro. Não olha para trás. O sol bate no rosto, o vento sacode o cabelo, Tiana vai. 

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Maio, 2017 - Fim de tarde em Brasília

Um burburinho de barzinho no fim de tarde. Tudo parece igual. Amigos se encontram no Café, grupos ocupam as mesas maiores. Adoram sentar-se ao lado de quem lê um livro, de quem está só. Desconfiam dessa solidão e afrontam-na.Alguém solta uma gargalhada alta.Tudo normal, tudo como antes.
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Quando

Quando se é a sombra de uma estrela esparramada sobre o mapa-múndi, cruzando terra e água, longe e perto de sua própria constelação. Quando se está aqui e lá, quando se tem tudo e sempre se quer mais. Quando vão-se os anéis e ficam os dedos e é possível ser "um sem deixar de ser plural". Quando se "vê a linha fina que separa aqui e ali" e, ao vê-la, não se contenta enquanto não a cruza. Quando se quer estar lá e cá e se quer amar, amar, amar.



All the faces I've loved

All the faces of men I've loved visit me in the quiet night of my noisy brain All the ones I once loved and came to hate or forget or pretend to have forgotten Lost in the cloud of indifference  I've carefully created
All of them come back  filling the emptiness  of my broken beaten banal heart In this quiet night of my crowded noisy brain
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stop and stare Inches away and shoot their questions right between my shortsighted eyes Why? Why not? How much? How little?
They give me no time to answer
They move and vanish like ghosts of the Christmas past Some fierce and revengeful  pass on the judgement they've held in long
You! They shout Too bold! Too coward! Too hot! Too cold! Too little! Too much!
I try to touch a face or another
I remember them Especially the ones I've hidden so well from myself "Hey, look at you!