Sunday, September 25, 2016

Tiana

Tiana saiu da escola, carregada de cadernos, 200 redações para corrigir durante o fim de semana. Tiana faz mestrado e queria ensinar os alunos a escrever outra coisa que não dissertação. Não pode! "Tem que ensinar o que é útil!", respondeu a diretora.

Na universidade lhe cutucaram uma vez e informaram que era preciso limpar o banheiro que estava muito sujo. "Não trabalho aqui!"  No trabalho já lhe pediram cafezinho. "Fica ali naquela mesa." Tiana vira as costas e não dá tempo para as justificativas e desculpas. Já sentiu muita dor. Não mais!  Agora é algo  assim como um desprezo. Em casa, pede comida do restaurante da esquina. Detesta cozinhar. 

Entra em seu quarto colorido, paredes azuis, mesa amarela de frente para um janelão, cadeira vermelha, e senta para corrigir as 200 redações.  Ouve o coaxar dos sapos lá de fora. Tiana tem muito nojo de sapo. Ouve um jazz instrumental e começa o trabalho. Meia hora e adormece em cima da pilha de textos iguais, formulaicos.

Acorda com o sol, queimando o rosto. Em cinco minutos toca o despertador. Tem aula, precisa correr. Sai de cabelo molhado. Pega o elevador, dá bom dia. "Tem um elevador de serviço, viu?" "Eu moro aqui!" Dá um passo à frente. Revira os olhos e cola na porta. A porta abre, Tiana sai primeiro. Não olha para trás. O sol bate no rosto, o vento sacode o cabelo, Tiana vai. 

Friday, September 23, 2016

Snow White

Snow White looks at herself in the mirror and puts on sunscreen. She makes sure she has it on her ears. Last time, she forgot them and spent a week with red burning ears. Snow White walks to the fruit shop. Passed the apple season, which always makes her feel inexplicably nauxious, she  feels reasonably well. Snow White works the whole day as a cashier. When the evening comes, she catches a bus to night school. She studies to be a nurse. "It's easy to get a job!", said one of her aunts. But what she really wanted was to be  a veterinarian. She had always had a way with animals. Snow White saves money. She does not eat anything during class breaks. Midnight, when she gets home, there is a plate of rice and beans saved for her in the fridge. She fries an egg. She eats and passes out. Such a heavy slumber she doesn't even know how she manages to get up the following day. Snow White saves the money from the snacks she doesn't eat at school and dreams to visit a castle in Germany. She saw it once on a magazine. Snow White wakes up for another day. She takes a shower, looks at herself in the mirror and puts on sunscreen. 




  

Branca de Neve

           Branca de Neve se olha no espelho e passa o protetor solar. Certifica-se de que passou nas orelhas. Da outra vez, esqueceu e passou uma semana com a orelha em brasa. Branca de Neve caminha até  a frutaria. Passada a temporada de maçãs que lhe dá sempre um mal estar inexplicável, ela se sente razoavelmente bem. Branca de Neve trabalha no caixa, o dia todo. A noite pega um ônibus para a faculdade. Faz enfermagem. "Emprego certo!", disse uma tia. Mas o que ela queria mesmo era fazer Veterinária. Sempre teve jeito com bicho. Branca de Neve economiza. Não come nada nos intervalos das aulas. Meia noite quando chega em casa, abre a geladeira e tem um pratinho de feijão com arroz esperando. Frita um ovo. Come e desmaia. Um sono tão pesado que nem sabe como acorda no outro dia. Branca de Neve economiza o dinheiro do lanche e sonha em visitar um castelo na Alemanha. Viu em uma revista. Branca de Neve acorda para mais um dia, toma banho, se olha no espelho e passa o protetor solar. 



Sunday, September 11, 2016

Sobre bolhas de sabão

Houve um tempo em que pensei muito em bolhas de sabão. Na verdade, elas surgiam no pensamento, leves, uma transparência azulada, suaves. Lá permaneciam, flutuando, de um jeito que só poderia acontecer em sonho. Era um tempo de suavidade, de caminhar a um palmo do chão e voar para longe. Toda bolha de sabão tem uma janela. E eu entrava pela janela, sentia a delicadeza. Por dentro,   contemplava a beleza das paredes finas.  Eu via o brilho de cada arco íris. Toda bolha de sabão tem um arco íris. Eu a sabia imaginária e sabia que mesmo uma bolha imaginária não poderia durar para sempre. Flutuava com a bolha e contemplava a janela aberta. Até que as paredes ficassem mais e mais finas e o mínimo pop me avisasse do fim da bolha. Puf, era uma vez uma bolha. 

Eu continuava a pensar  na bolha de sabão, eu a trazia para o papel, eu a revivia. E quantas vezes sonhei e quantas vezes me deixei levar. A verdade é que sempre fui fascinada por bolhas de sabão. Não como o cientista do conto que estudava a sua estrutura. Nunca quis saber da estrutura da bolha. Sou o tipo de pessoa que se perde na rigidez das estruturas. É a beleza da bolha que me atrai. É sua leveza que me conduz, sua capacidade de vôo que me leva. É sua efemeridade que me atormenta. 

Linda e leve é a bolha de sabão e eu carrego todo o peso do mundo. Meus pés afundam a cada pisada, cada vez mais fundo, cada vez mais pesado o passo. Eu preciso das bolhas de sabão e ainda as procuro. O passo é lento, a pegada é funda, mas eu sonho com bolhas de sabão e há sempre  uma janela em uma bolha de sabão.