Tuesday, March 29, 2016

Moribundo

Morre nāo morre 
Pendura-se 
Por fino fio
Sustenta-se 

Sorve gotas de ternura
Alimenta-se 
Da escassa matéria 
Dos sonhos

Mingua,
Moribundo
Arfa 
Suspira 

Segue
Resignado
Em direção à luz



Saturday, March 26, 2016

Rio Valsa

Um rio separa,
Divide, 
O que é jovem e o que é antigo 
O novo se vê no velho 
E o que é novo envelhece a cada dia

Muda assim o novo 
Mistura-se
A esse antigo 
Que se transforma 
Um rio nunca é o mesmo rio

Os tristes sapatos permanecem 
À beira do gélido rio
Sapatos sem pés que os calcem 
Nunca mais
Corpos levados pelo rio

O rio não é mais o mesmo
Não corre mais sangue 
Nesse rio valsa
Que separa e mescla 
O que envelhece e rejuvenesce
O que é brasa adormecida  
intensa chama
Rodopia, valsa!
Rodopia, rio!
Rodopio eu

Um rio atravessa
Corre 
Sinto seu movimento,
Sua correnteza
Leva-me, hoje,
Cinzento rio
Em sua valsa azul 

Choro e sorrio
Do que foi,
Do que será
Mas o que é,
Apenas é,
É um rio
E todo o rio segue
Urgente 
Para o mar





Algo que sei da Ditadura

Ano passado, contei uma história do meu tempo de escola para minha filha, uma agressão sofrida por mim e cometida por um colega. Uma agressão que ninguém testemunhou. Ela logo me perguntou: - Por que não foi na Coordenadora?  Não soube responder imediatamente. Fiquei pensando... 

Na escola das minhas filhas, a coordenação é um espaço aberto, as crianças entram em grupos ou sozinhas, questionam injustiças, demandam soluções.  Entendi, ali, mais um pouco de como o período da ditadura, que eu vivi como criança  e adolescente, influenciou minha formação. A escola não era, na Ditadura, um lugar  para pensar, era um lugar para se informar, talvez, mas não para pensar. Não era um lugar para questionar. A Ditadura não permite questionamentos.

A Coordenação, no tempo da ditadura, não era um espaço acolhedor para os alunos. Era um espaço de punição. Você era mandado à coordenação se cometessse algum delito. Se o delito fosse muito grave, seus pais também eram chamados. Expliquei para minha filha que no meu tempo a gente não tinha espaço para questionar coisas com a coordenação, e,  ainda bem, que ela achou aquilo tudo muito estranho! 

Olhando para trás, vejo que tive sorte de ter pais que me educaram para a crítica e o questionamento, que me incentivaram a conhecer História, a explorar a Literatura, indo além do oficial e recomendado. Ensinaram-me que é preciso ler nas entrelinhas, buscando não só o que está exposto, mas o avesso do bordado.  Percebo, no entanto,  que a escola da época, reflexo da opressão da ditadura, tolhiu muito do meu potencial criador. Aulas de artes, poucas, que indicavam como fazer, em que estilo pintar, escrita que seguia fórmulas, música e leituras limitadas, a impossibilidade do exercício criador... Tive que descobrir meu caminho só e apesar desse sistema que me formou. 

Meus pais fizeram muito para que eu pudesse viver criticamente, para que eu avançasse de modo independente. Dei sorte! Mas eles também foram limitados por esse período, em que viveram como jovens e como pais. Eles tiveram suas perdas, seus temores, suas vozes abafadas, suas liberdades cerceadas. 

Hoje, vejo que levei muito tempo para compreender e acreditar que criar era possível e que era um direito meu. Há poucos anos, consegui permitir que a minha criatividade alçasse vôos. Desejo vôos mais altos para minhas filhas e seus amigos e sei que a Ditadura não permite vôos. A Ditadura corta asas! Ditadura, nunca mais! 

Monday, March 21, 2016

Reflecting about truth

My mother had Alzheimer's. I took her to the Doctor in the beginning and due to quite a high number of threats from her sisters, my sisters and I had to agree not to tell her she had it. According to one of my mother's sisters she would either kill herself if she knew or she would perish twice as fast. It was a great responsibility to take a decision concerning other person's life and, afraid of having to deal with the consequences of an unsupported decision, I gave in reluctantly. I decided, however, that, although I would not tell her she suffered from the condition, if she asked me directly if she had Alzheimer's, I would then tell her. I was not going to lie to my mother about her own life. She never asked though and I never had to say anything. 

One day, when we could still maintain a conversation, I was talking to her and I told her that  if anything happened to me, if I ever got cancer or some other disease, I would like to be informed of everything, I would like to use my time to make my own decisions. I would like to be the one in charge of my life for as long as possible. She turned to me and said: "I'd rather not know." That gave me some peace of mind. Of course, I question, at times, if that was her in her sound mind, or her already ill, saying it, but still it was her and she was a very intelligent woman who never made the question: "Do I have Alzheimer's?" 

My thoughts went to my mom today because I was thinking about my relationship with the matter of truth. I search truth when doing research. I search truth in my writing, in the drawings I make, in the pictures I take. I search for it. It may not seem so, but even when I feel divided and confused I do search for the truth within. I am a true believer that the truth will set you free. Still, I lie. And don't we all?

 In my defense, I'd say I hide the truth, at times, to protect others from a hurting truth, somehow like I did for my mother. I lie, at other times, in hope I'll find the truth as I go on, in hope that I will choose the truth once I find it. Truth is what moves me and truth always sets me free.  So, if you ever fear, you will hurt me by telling the truth, know that truth is the core matter of my life and its other side, the lies, its dark side, are also known to me.

I feel the vibrations of insincerity, of hidden and unknown intentions. They reverberate like sound waves inside me, echoing for long after they are gone.  I'm moved by the truth and the lack of it saddens me deeply, hurts me profoundly. If you fear the truth will hurt me, know that I feel the lying, the uncertainty, the laconic answers. You too may be lost and have not found your truth yet. Perhaps you are not even looking for it, perhaps this is not your search, but if it is, if you know your truth, share it with me and set me free. 

Losing our parents

We are losing our parents
We are becoming orphans
Gray haired orphans
Pretending to be strong
As they once did

They are leaving us behind
One by one
They are betraying their promises
They are abandoning us
As they've never done before

We are alone
In the dark, we find ourselves 
And we want to call them out:
"Stay a little longer!"
"Hold my hand once more!"
"Make the bad dreams go away!" 

We feel the lines crawling on our faces
One for each disappointment, each frustration
One for every loss, every dream that is no more
They have carved sulks in our faces 
They have changed our smiles

We let out a few tears
When what we truly want is to scream
To despair, 
To fall apart

Yet, we don't
We won't
We hold on

We are the parents of our children 
We are the parents of our parents
We are our parents
We pretend to be strong





Tuesday, March 1, 2016

The Mask

A mask
Everybody wears
Now
The mask is the face

Now 
The mask is part of you
The truth and the mask
The lies and the mask 

Now
The mask is  you 
Now 
You are the mask