Thursday, February 25, 2016

Elefante Voador

E na janela a gente podia ver um elefante voador. Era verdade! Muito leve, flutuava lentamente, em paz. Contei para ele, mas ele levantou a sobrancelha direita e espremeu o olho esquerdo, entortando o canto da boca para cima. Eu conhecia essa expressão. Ele permaneceu de costas para a janela. Nem por um segundo virou. Nem uma espiadinha de canto de olho! Não insisti. Relaxou a expressão, sorriu, chamou o garçom.

Suspirei! O que mais podia fazer? Suspirei, mas mantive os olhos fixos na janela, enquanto ele pedia as bebidas, os pratos, o dele e o meu.  Mantive os olhos na janela, enquanto ele comandava o garçom com aquela voz de dono do mundo. Ele se gabava de saber lidar com as pessoas, de obter delas tudo o que desejava.  Talvez eu tivesse acreditado nisso, um dia. Hoje, só o que via era um sujeito mandão e grosseiro. 

Conseguia as coisas porque usava essa sua grosseria com funcionários, serviçais, garçons, isso sim! Fiquei imaginando quantas cinzas de cigarro não deve ter comido sem saber, quantos bifes esfregados no chão, quantas sobremesas cuspidas... Mas ele não tratava todo mundo assim não. Aqueles em posições interessantes, que podiam lhe trazer algum benefício, eram cuidados e tratados com esmero e delicadeza. Meus olhos continuaram fixos no céu daquela hora, que não é nem mais dia, nem bem é noite. Meus olhos ficaram lá, no céu. 

Assim permaneci,  contemplando o fim do dia, a noite chegando. Os tons rosados, avermelhados, substituídos pela escuridão. Vi,  entre uma névoa fina, seus lábios mexendo sem som, seu riso de dentes brancos, jogando a cabeça para trás. Silêncio total!

Nítido mesmo era o céu, pontilhado agora de estrelas, nítido era o fato de que eu via elefantes que voam. Eu via, ele, não! O céu, meu olhar fixo no céu, a distância. Era melhor tomar distância! Olhei para trás, as casinhas cada vez menores, encolhendo, casinhas de boneca. Tudo tão  pequeno, tudo já tão longe, muito longe! Voavamos agora,  eu e o elefante!  E ele, que não via, eu já quase não o via! Ele era um minúsculo ponto distante, imensamente distante. Um ponto que encolhia até que então, para sempre, desapareceria. 

Friday, February 19, 2016

Umbrellas in Budapest



From my hotel window, I watch a procession of colorful umbrellas pass on yet another rainy day in Budapest. I think about what I've left behind, things  that could not have been, dreams never fulfilled. A rainy day, not much different from any other day of this week, in this place that  is, to me, a door to the unknown east and all the mysterious stories of my childhood. Umbrellas parade around the walls of the Fishermen's bastion, the color of lime, orange, red, purple, light blue and bright pink. I see them walking around through the drops of rain that distort the view through my window. I take a sip of my capuccino. 

I woke up late, the cold makes my tropical soul lazy, and I wait for the Hungarian lady to throw me out of the breakfast room, telling me and the young couple on the table at the corner that breakfast time is over. I look at the couple and I guess they had been awake for a while, but had been too caught up with each other to remember breakfast until it was almost too late. They are in no hurry either. 

I get up and serve myself of more capuccino. In defiance of time, I remain there contemplating yet another parade of umbrellas, a  large group  which will certainly marvel at the view from the walls, the river, the bridges, the breathtaking sight of the Hungarian Parliament. They will forget their common lives, their doubts, their uncertainties, their ordeals only too human. In awe, they will remain there speechless, for a minute or two. Then, they will resume their march. I'll still be here, sipping my capuccino and mourning all I've left behind, hoping for a future of breathtaking views and sunny days or, at least, for many other rainy days with processions of hopeful multicolored umbrellas. 

Sunday, February 7, 2016

The lizard and the delicate winged creature

"What's on your mind?" asked the lizard.
"Worlds are on my mind. Worlds lying beyond this insignificant place of ours." Replied the little delicate creature. 
"And what would you do if you could reach them?" inquired still the reptile. 
"I would sunk my teeth deep on each one of them. I'd live more than a thousand lives. I 'd dive into all my passions and follow on every whim." answered the seemingly frail winged animal. 

The lizard smirked: "But you don't even have teeth, silly ignoble dreamer!" 
"Be certain, I would grow some!"  Retorted the creature, turning around and resolutely flapping  its wings in the direction of the silvery shining sky. 

The lizard remained still, its cold blood even colder, its eyes, static, staring at the imenseness above. The creature, it never saw it again. But now, the lonely lizard could not help, it could not control, it could not resist. While standing on its rock, feeling the Sun on its skin, it, too, contemplated worlds.

Saturday, February 6, 2016

Friday, February 5, 2016

A lost soul


A lost soul 
Trespassing boundaries
Invading dreams
Following whims

A lost soul
Breaking fences
Transcending limits
Dismantling defenses

A lost soul
Glowing
Finally found 
Shining

In the core matter
Of the vital energy
In the fifth dimension
Of flawless harmony

In the deepest time-space connection 
In the straight unstoppable direction 
Of the purest state 
Of life









Thursday, February 4, 2016

A vida secreta das ilusões

Andava entre aqui e ali, entre lá e cá. A cabeça nas nuvens, os pés nem sempre no chão. Não fora assim toda a vida, tudo era, até há pouco, nitidamente preto e branco, tudo muito certo ou tudo muito errado. Linha traçada em caneta de pena. Tudo claro, tudo às claras. 

Hoje, não. Infinitos tons de imedidas cores, vibrantes tons, extasiam seu olhar e misturam sentimentos e pensamentos. Levam à criação de um mundo novo, exuberante, rico e apavorante. Nesse mundo, não se pisa em chão firme, o chão flutua em pedaços, de um passo a outro, de um salto a outro. Não se sabe se afunda na próxima pisada ou alça vôo e alcança o infinito. Caminha nesse mundo, às vezes com alegria, às vezes com cautela, ou mesmo medo. 

Mundo novo. As cores inebriam, acendem sonhos adormecidos, despertam desejos atordoados, que ressurgem como foguetes lançados ao espaço, incendiários. Tudo novo, tudo mais antigo que o mundo, tudo a aprender, engatinhar. Tanta luz, tanta cor, tanto mundo. Ela acabara de nascer e a vida já estava no meio, para lá do meio. 

Andava aqui e ali, o peso das responsabilidades, os deveres dos sonhos e das paixões. O amor profundo pelo todo do mundo. Lá e cá, entre as infinitas combinações de palavras, as inúmeras mesclas de cores e sentimentos. Para onde seguir? O coelho de Alice a levara para esse outro universo. Se ao menos pudesse localizar esse coelho! Fazer-lhe perguntas, exigir-lhe respostas! Tantos caminhos e bifurcações. E lá se foi o coelho. Agora é seguir. 

Toma decisões, arrisca, teme, comete erros, sofre, perdoa-se. Engatinha apenas. Cambaleia e tem medo, medo de cair, mas segue. Está aprendendo, tentando aprender. Ouve distantes sons, revisita passados remotos, alcança o outro lado do mundo, retorna ao centro do umbigo do eu. Velhos olhos novos observam sem piscar. Ardem os olhos, por vezes. Cansam. Dorme por dias, e noites, e dias. Retorna, ainda está tudo lá. 

Não tem certeza sequer do que busca, mas precisa crer que saberá quando encontrar. E continua, caminha, avança e retorna, em meio à gigante aquarela. Caminha e o caminho se fará. Busca no passado, no futuro, vive o presente, e se mistura às cores todas, e vira arco íris. E brilha. E vira nuvem  e chove. Troveja, relampeja e volta a misturar-se à aquarela, naturalmente difusa, bela em suas invasões de cores. 

Caminha e o caminho se fará. E ela caminha, a água do mar morto até o nariz, e ela mais viva que nunca. O mar morto e o medo da morte. Voltar é impossível, é impensável. Não há mais o que ficou para trás. Não há e não é mais. Ela se entrega ao inevitável e prossegue o caminhar.

Monday, February 1, 2016

A delicate thing

Intimacy is a delicate thing
The wings of a dragonfly 
The toutou of a porcelain ballerina
The rim of a crystal glass
The transparent surface of a floating bubble

Intimacy is a delicate thing
Do not hold it too long
Do not try to stretch it, bend it
Do not  sink your teeth on it
Do not press it too strong

It may make you bleed
Uncover your weaknesses
Expose your nakedness
Leave you bare

It may vanish 
Turn into  ashes
Disappear 
Before your eyes

Intimacy 
This delicate
Imanescent
Beautiful 
Fleeting little thing