Wednesday, November 27, 2013

Furacão

Uma vez, sonhei que morria. Uma convulsão, a reprise de outra situação. Dessa vez, não conseguia voltar, me chamavam, como antes havia acontecido, mas eu não conseguia abrir os olhos.  Demorei a acordar e acreditar que não estava morta. Também não estava no hospital. Não havia tubos, aparelhos, máscaras de oxigênio, catéter, sonda... Chorei em silêncio. 

Schopenhauer disse que vivemos com leveza porque escalamos uma montanha sem saber o que encontraremos do outro lado, mas se enfrentarmos a morte e escaparmos dela, jamais subiremos a montanha do mesmo jeito. Lembro isso, não para causar pena, para que me olhem com os grandes olhos da piedade. Lembro porque é isso mesmo. Não se sobe a montanha da mesma maneira.

Houve um tempo que não queria mesmo subir para lugar algum. Na verdade, se pudesse teria rolado montanha abaixo, mas não rolei. Havia a promessa: "Não vou deixar você só! Não se preocupe!" Acho que foi a promessa, mas não gosto de atribuir tanta nobreza ao meu ser. Houve um tempo em que pensei: "Maldita promessa! Não há porque continuar!" Permaneci então sentada na montanha, parada, encolhida. Hoje penso na montanha. A grandiosa montanha não tinha mesmo, àquela época, a menor graça.

Outra imagem constante era a de um furacão. Passei muito tempo no olho do furacão, vendo tudo pelos ares, estilhaçando-se, sentindo-me também arrebentar, partir em pedacinhos. Tragada pelo furacão, tudo rodava, cacos e destroços rodavam; eu,  aos pedaços, rodava.

Fui juntando os pedacinhos, mas o furacão continuava. A diferença é que, depois de um tempo, galguei suas tão reais imaginárias paredes e fiquei ali, mal remendada, sentada na borda, vendo os destroços a girar e girar. Assim permaneci. Entendo os que tiveram dificuldades de olhar para aquele furacão, mas não aqueles que fugiram. Desses, já tive muita mágoa. Hoje tenho muita pena. Admiro imensamente, no entanto, os que ficaram por perto e esses seguem comigo. 

O que pude, recuperei, colei, remontei. O que não tinha mais jeito, aos poucos, fui deixando seguir no furacão. Criei outras novas estruturas, diferentes, outros sonhos, outros ideais. Quem não estava lá, quem depois não me buscou, não sabe quem eu sou, não me conhece mais.

Ouvi inúmeras coisas, muitos absurdos, que a tragédia me faria melhor; que Deus tinha um propósito, que eu o veria lá na frente; que eu aprenderia com isso e poderia servir de instrumento na vida dos outros; comentários ingênuos, bem intencionados, mas também cruéis. Sempre tive vontade de perguntar a essas pessoas tão pias por que não pediam todos os dias por algo semelhante na vida delas. Tão bom ser instrumento, não? Outras criaturas contavam casos semelhantes, suas próprias vivências, terminando a conversa da seguinte maneira: - Mas Deus foi bom pra mim! 

Uma vez, uma moça me disse, condoída: “Poxa, como isso foi acontecer...” E depois de um tempo em silêncio: “Mas vocês são tão legais...” Ela ficou em silêncio, procurando, buscando o que poderia ter de errado, ou de ruim,  comigo, com meu marido, para que uma tragédia daquelas tivesse acontecido. Na sua lógica, estávamos sendo punidos por algo e, por isso, Deus não tinha sido bom para nós. Hoje tenho mais paciência com essas conversas e pessoas, sei que a intenção, irrefletida, pode ser boa, mas isso é, certamente,  por que não estou mais no olho do furacão. Só por isso!

Lembro que algo que de fato me ajudou foi uma frase em um livro budista que dizia simplesmente: "O sofrimento faz parte da vida." Acredito realmente que aprendi algumas coisas, mas não sou agradecida à tragédia que me sucedeu. Poderia tranquilamente viver sem todo esse aprendizado, em uma feliz ignorância. Egoisticamente, não me incomodaria de tê-lo visto dividido com umas vinte outras pessoas, para que minha dose fosse menor. Poderia, perfeitamente, continuar acreditando na enormidade dos pequenos problemas. No entanto, não me foi dada essa alternativa.

Entendi minhas opções, então, da seguinte maneira, sem nenhuma transcendência, ou beleza espiritual, na dor. Uma vez no fundo do poço, na merda, a pessoa tem duas possibilidades: Ou se ergue, e sai de lá, ou chafurda na bosta para todo o sempre, amém! Com imensa dificuldade e grande esforço, apoiada por quem me ama, apesar de tudo, e me agarrando a recursos antigos e novos, fui saindo, fui me erguendo e fui vivendo; buscando vida, luz, beleza, alegria. 

Hoje, contemplo meu furacão à distância, observo o seu movimento, a sua sombra. Esquecer a sombra, significaria fechar os olhos aos que sofrem todos os dias, aos que partem, aos que ficam e choram. Não desejo isso para mim! Também não quero para os outros o sofrimento na solidão. Não há maior escuridão do que sofrer na solidão.

Friday, November 22, 2013

No Azul II - variações sobre um mesmo tema

O zunido do impulso na água, 
as bolhas que se formam, 
com as braçadas,
acompanhando os contornos 
do corpo, 
explodindo em mil pequenos 
borbulhantes sons, 
delicadamente interrompendo
a quietude, o silêncio. 

O corpo alongado
alcançando o infinito, 
O azul que envolve o corpo, 
envolve a alma, 
sutilmente invade, 
gentilmente acolhe.

A água, 
que cura,
que acalma.
De onde viemos, 
Para a qual voltamos.
Nada mais importa, 
a não ser a água.
Nada é maior do que a água.

Thursday, November 14, 2013

Para meu amigo

Querido amigo, espero que saiba que é amado, que sinto sua falta. Espero que não sinta dor e que não tenha medo. Espero que possa perdoar minha ausência e minha incompetência, minha inabilidade de encontrá-lo a tempo. 

Saiba que o perdoei por perder a fita pirata da banda que nem existe mais.  Gostaria que pudéssemos, para sempre, falar dessa fita. Gostaria que continuássemos a partilhar nossos sonhos, a tomar uma cervejinha, a dançar e a contar piadas.

Meu querido amigo, gostaria de ter sabido, de ter estado mais perto. Gostaria de ter lhe apoiado e de que ainda houvesse tempo para ganhar a confiança da sua família, dos seus filhos. Gostaria que me chamassem de tia e que eu os ajudasse a crescer. Gostaria que conhecesse minhas filhas e que risse com elas. Sei que o faria!

Gostaria que tivéssemos nos encontrado novamente e falado sobre a vida, sobre o quanto crescemos e como tudo acabou sendo tão diferente. Gostaria que tivéssemos rido disso e que tivéssemos percebido que estávamos bem, que estava tudo bem.

Mas é tarde, meu amigo. É tarde e eu me sinto impotente. Não posso vê-lo, não posso resgatá-lo, não posso salvá-lo, nem posso fazê-lo rir. Posso apenas esperar, meu querido amigo, que você saiba que é amado. Posso apenas implorar, a todas as forças, que você possa seguir em paz. Adeus, meu amigo!   

Wednesday, November 13, 2013

To my friend

Dear friend, I hope you know you're loved. Hope you know you're missed. Hope you're not in pain and you're not afraid. Hope you can forgive my absence and my incompetence, my inability to find you in time. 

Know that I forgave you for having lost  the demo tape of that band that doesn't exist  anymore. I wish we could keep forever talking about that tape.  I wish we could keep on sharing dreams, and having drinks, and dancing, and telling jokes.

My dear friend, I wish I had known. I wish I'd been closer. I wish I had been there for you and that there was still time to earn the confidence of your family, of your kids. I wish they'd call me auntie and that I could help them grow. I wish you could meet my kids and laugh with them. I know you would.

I wish we could have met again and talked about life, about how grown up we are now and how different everything turned out to be. I wish we could have laughed and just known we were all right. 

But it's late, my friend. It's late and I feel impotent. I cannot see you, I cannot rescue you, I cannot save you and I cannot make you laugh. I can just hope, my dear friend, that you know you're loved and I can only beg to all forces that you can go in peace. Goodbye, my friend! 

Monday, November 4, 2013

Certos dias


Tem dias que, para sentir-se vivo, é preciso saltar de paraquedas, correr uma maratona, atravessar o canal da Mancha a nado, escalar uma montanha. Tem dias que, para sentir-se vivo, não é possível apenas acordar, tomar café, ler, pensar. É preciso ir ao Japão, à Índia, à Indonésia, sozinho! É preciso perder-se nas ruas, ouvir a língua estranha. É preciso não entender. Sentir-se pequeno, insignificante, em um templo gigantesco. É preciso quase sumir. É preciso não saber se vai voltar.

Em alguns dias, a claridade do sol, a pequenez do dia a dia, não traz vida, não é suficiente. Tem dias que nenhum sorriso, nenhuma palavra, nenhuma cor apaga a mácula da dor, da perda, da separação. Não há distração suficiente, não há projeto que faça sentido, não há empenho que, nesses dias, valha a pena. Toma-se conta dos projetos, empenha-se, mesmo assim. Investem-se energias, cumprem-se obrigações, doam-se carinhos, buscam-se forças, mesmo assim.

Há dias em que é preciso, no entanto, na impossibilidade da grandiosidade, conformar-se. Aceitar o vazio, a dor, e deixar o tempo passar. Na impossibilidade de sentar à beira mar, de contemplar as ondas, a cor das águas e do céu, deve-se contemplar o existente, deve-se aceitar o som das cigarras, mesmo que irritante, mesmo que ensurdecedor. Na impossibilidade de não proferir palavra até o anoitecer, deve-se dar bom dia, deve-se tratar com afeto os estranhos. Deve-se aceitar sorrisos, carinhos, afagos. Deve-se ignorar a indiferença, relevar as ignorâncias. Porque não serão assim todos os dias.